Coisas de coisas

3rd May 2012

Post

dúvidas

Era uma menina tão bonitinha. Trancinhas, vestidinho e chapeuzinho. Era seu primeiro dia na escola e ela estava tão animada. Entrou na sala e achou a decoração tão bonita! Um lado tinha as paredes todas pintadas de azul-noite e as carteiras era cinza, os alunos daquele lado se vestiam igualmente com um uniforme verde. O outro lado tinha as paredes vermelhas, as carteiras eram rosa e os alunos se vestiam de um tom de laranja-abóbora. Os alunos de verde estavam sentados, lendo, escrevendo enquanto os de laranja dançavam loucamente entre si, cantavam e desenhavam com canetinhas e lápis coloridos.

Ambos os lados se ignoravam. Os do lado azul não ligavam para a bagunça dos de laranja, que não invadiam o espaço dos de verde. A mesa da professora era de um mogno escuro. Era uma bonita mulher, ruiva com um rabo de cavalo. Quando olhou para a garotinha foi possível ver que seus olhos tinham cores diferentes: um azul e outro verde. Estava sentada olhando para a sala, mas quando viu aquela garotinha incomum levantou-se e caminhou até ela. Perguntou seu nome e soube que era Tereza. A da professora era Julia, ou Alice, a garotinha não entendeu direito. A professora reparou nos sapatinhos laranja da garotinha, então a mandou sentar no lado vermelho da sala. A garotinha sentou em sua mais nova carteira rosa. Olhou pro lado e viu um menino e uma menina a olhando feio. Apresentou-se e perguntou se tinha algo errado. Ora, é claro que tinha, responderam as crianças, o cinto que estava em torno de seu vestidinho era verde, e verde era a cor do outro lado. A menina de laranja reclamou do cinto para a Julia, que sugeriu à Tereza que tirasse seu cinto, mas a menina de laranja disse que não adiantava nada tirar, porque o verde estava no imaginário daquela garotinha nova de vestidinho. A professora, sem mais argumentos, pediu à Tereza que se sentasse do outro lado da sala. Acomodou-se na carteira cinza e retirou seu caderno rosa da mochila. Um dos meninos que escrevia olhou aquilo horrorizado e chamou a Alice. Não é possível alguém escrever em algo com aquela cor, reclamou o garoto, aquela cor praticamente o cegava. A professora pediu então que o menino emprestasse uma folha de caderno para a Tereza, o que foi recusado, por suas folhas serem muito preciosas. Ninguém daquele lado emprestou folha alguma, então Tereza guardou seu caderno e se sentou na grande mesa de mogno da professora. Os alunos de ambos os lados a olhavam com ódio. Não era possível alguém usar o verde e o laranja ao mesmo tempo! Não era permitido! Como a professora permita que aquela garota nova com vestidinho permanecesse na sala? Mesmo que no outro dia ela viesse com uma só cor, nenhum dos lados a aceitaria, pois a outra cor já estava no imaginário da garotinha.

A inocente garotinha não compreendia e não aceitava ter que escolher apenas uma cor, afinal ela gostava tanto de seu cintinho verde… Seu sapatinho laranja era tão lindinho! E seu vestidinho era xadrez, não queria usar algo apenas verde ou apenas laranja. Ela queria usar suas estampas de florzinha e sua jaquetinha de couro! Não era justo ter que usar apenas uma só cor! Pôs-se a chorar. Chorou, chorou. A professora viu e se aproximou. Perguntou o que acontecia e ouviu atentamente a explicação da garotinha. A professora então explicou que a vida era assim, não se podia querer ser verde e laranja, era preciso escolher entre o verde ou o laranja. Ninguém poderia querer as duas juntas ou mais de uma cor. A garotinha pensou em seus pais e disse à professora que nenhum deles usava verde ou laranja. A professora disse que isso não era possível, ou eles usavam uniforme (como ela estava usando) ou eles eram contra a natureza. A menina chorou novamente. Com o fim da aula nenhuma criança chegou perto dela. Ela tentava falar com alguém, mas ninguém respondia. Ela era laranja demais para falar com alguém de verde, e era verde demais para falar com alguém de laranja.

Caminhando sozinha na rua preta olhou para o céu azul celeste. Ela não desejava ser ou laranja ou verde. Ela não queria… Ela olhou para cima e pediu a seu Deus que a ajudasse. Deus não respondeu. A garotinha chorou novamente e decidiu sentar na calçada. Perguntou-se o porquê de ninguém gostar do colorido e deprimiu-se. As outras pessoas não compreendiam… Enxugou a última lagrima e levantou-se. Quando olhou para frente viu algo que ninguém acreditaria. Um unicórnio branco com o chifre reluzente estava parado olhando para ela. O unicórnio veio em sua direção e encostou o focinho em seu ombro. A garotinha achou graça e riu. A garotinha subiu na calçada e pôde subir no unicórnio. Quando estava bem confortável o unicórnio começou a galopar. Galopava tão velozmente, mas ela não sentiu medo. Com um salto, o unicórnio começou a galopar no ar. Lá de cima a garotinha viu a cidade toda. Chorou de novo, pois um lado da cidade era cinza e outro era rosa. Até a cidade era dividida. Olhando para o unicórnio desejou não mais ter de fazer escolhas, pois isso a estava matando ao poucos. O chifre do unicórnio brilhou fortemente e a garotinha não pôde ver nada. Quando se deu por si percebeu que estava num lugar totalmente diferente. Seu desejo se tornara realidade por fim.